Pages

29

Memórias do Coração

Ultimamente eu tenho tantas lembranças de coisas que aconteceram em minha vida que ando até preocupada. Fico pensando se vou morrer logo, porque qualquer coisa é suficiente para acionar uma lembrança antiga. Pode ser um cheiro, um som, uma referência, só sei que de repente vejo uma cena antiga direto do túnel do tempo. Nestas últimas semanas tem sido pior, mas acho que é por causa das festas de fim de ano, quando sempre lembramos daquelas tias velhas empoeiradas e esquecidas na hierarquia afetiva. Ontem eu assisti um filme lindinho, O Som do Coração. Embora seja uma história quase mágica, eu fiquei impressionada porque me lembrou um caso que uma amiga psicóloga me contou há bastante tempo. Um menino afirmou durante a terapia que tinha pesadelos constantes onde se via deitado no chão de um local com azulejos brancos na parede e muito sujo. O menino nunca contou para os pais sobre esse sonho, e ao conversar com eles sobre o tratamento do menino, a mãe começou a chorar, contando que o menino havia sido adotado e foi encontrado por ela com dois dias de vida abandonado em um banheiro público. Ou seja, os sonhos do menino nada mais eram do que uma lembrança real de quando ele tinha dois dias de vida! É uma história parecida com o mistério das pessoas que fazem transplante e dizem ter lembranças do doador. No filme, o menino passa toda a sua vida no orfanato porque tem certeza que seus pais o queriam muito e vão encontrá-lo através da música. Nem mesmo o agente tutelar acredita nele, mas ao longo da história vários fatos vão revelando a ligação especial entre ele e seus pais. É interessante porque o talento especial do menino para a música poderia ser explicado cientificamente pela genética, já que os pais são grandes músicos. Porém, nunca atentamos para outras formas de conexão que podemos ter com as pessoas, independentes do que é real ou não. Eu tive algumas conexões deste tipo na minha vida, mas não acredito que tenha valorizado estes momentos como deveria...Também já aconteceu o contrário, quando eu tive certeza do quanto era especial um determinado relacionamento, a outra parte agiu de forma desinteressada. Assim, para tudo dar certo, todas as forças tem que atuar de forma conjunta e harmônica, caso contrário, perdemos as oportunidades de encontros definitivos em nossas vidas.de qualquer forma, são reflexões sobre a esperança que existem em cada um de nós que é intensificada com as festas de fim de ano. Para não ficar fora do contexto, desejo a todos que passam por aqui um fim de ano com renovação de todos os sonhos e esperança por um futuro melhor para nós!

0

Sobre as Pontes de Madison

O filme As Pontes de Madison é mais do que uma bela história, é um filme que fala sobre as nossas escolhas e as eternas lutas internas que carregamos junto conosco para o resto de nossa vida: e se fosse diferente? Se tivesse dado certo, se eu tivesse sorrido, se não... Ninguém pode saber ao certo como seria se os caminhos escolhidos fossem outros, mas a possibilidade de escolher faz nossa imaginação correr solta durante algum tempo.Basicamente conta a história de um casal, ela uma dona-de-casa e um fotógrafo que viajou até a cidadezinha que ela vive para tirar fotos das famosas pontes de Madison. É um casal maduro, a relação deles é contada através de palavras, olhares, desejos, mas é tão delicado e impactante...Mesmo quem nunca foi casado acaba de perguntando ao final sobre suas escolhas em todos os relacionamentos. Há algumas semanas atrás conheci um homem casado muito interessante e apesar de nenhuma palavra suspeita ter sido dita,era evidente o clima de atração no ar. Não estou falando de flertes óbvios ou armação, estou me referindo exatamente ao contrário, quando a atração física existe e as duas partes, por inúmeras razões, reprimem e disfarçam ao máximo o que estão sentindo e a história morre por aí. Em alguns momentos esta situação é tão intensa que até as pessoas próximas percebem, porque não conseguimos evitar de olhar para os lábios do outro, as mãos não param quietas, qualquer piada é motivo de risadinhas nervosas, enfim, todo aquele ritual prévio que passamos várias vezes ao longo da vida. Só que neste caso, já sabemos de antemão que não vai dar em nada, diferente de quando estamos livres e solteiros e já nos imaginamos casados com três filhos... Aliás, isto é fato, nós mulheres pensamos mesmo nisso e não como uma visão romântica ou como estratégia de fisgar marido. Penso que é simplesmente uma verificação se o provável parceiro cabe em um quadro de convivência possível, caso alguma coisa abomine esta possibilidade, já descartamos logo. Não é um ensaio romântico, é estratégia de sobrevivência genética da espécie. Já saí com indivíduos que ao final da noite eu só podia pensar que não existiria nenhuma possibilidade de enquadrar a figura em nenhum contexto familiar ou com os amigos. Depois de classificado como diversão only, a coisa vai esfriando até que acaba... No caso deste homem em especial, tudo que fica depois de um encontro desses é a imaginação, o pensamento igual ao final do filme, o que aconteceria se eu fosse ao seu encontro? Toda a minha vida mudaria num instante? Nós seríamos felizes? Nossa paixão seria insaciável? Envelheceríamos juntos? Muitas vezes nada disso resiste ao próximo encontro, mas em alguns casos carregamos para sempre a lembrança de algo que poderia ter sido. É a eterna dúvida do "se", que alguém já afirmou ser uma palavra de duas letras que é sinônimo de inutilidade. Só ajuda o tempo a passar pensando besteiras...

0

Os Limites do Real

Ufa, depois de semanas de muito trabalho, pouco dinheiro e chiliques de chefes e subalternos, consigo voltar aqui. Mesmo não registrando minha surpresa, indignação e perplexidade diante dos fatos registrados nos jornais, acompanhei de perto as notícias. O único problema em acompanhar a quantidade de informações que rola na Internet hoje em dia, é entrar em desespero/depressão e querer descer no próximo ponto do movimento orbital do planeta Terra. Eu trabalho com inclusão digital, escrevo sobre os excluídos das novas tecnologias de informação e comunicação, mas tem horas que dá uma vontade enorme de ser um completo analfabeto digital, alguém sem o menor sentido de compartilhamento de informações. O que me leva ao desalento é não ter mais certeza do que é real e relevante e o que não passa de pura abobrinhagem. Tentando juntar os neurônios com o mínimo de razoabilidade, classifiquei as notícias a partir dos princípios da taxonomia de Bloom:



1. Ridiculus Esperadus: a separação hilária de Marcelo Vagabundo Silva e Suzana Sem-Noção Vieira


2. Antipaticus Agressivus: a separação violenta de Luana Piovani e Dado Senta-a-Mão.


3. Esperansosis Vulgaris: o convite de Obama para Hillary Clinton assumir uma pasta em seu governo (não sei porque razão os assessores não gostaram...).


4. Tragedis Molhadus: chuva no Sul do país, lembra muito 1985...

5. Cassadus Cassius Governare: o governador cassado e a indicação de uma quadrilha para substituí-lo.


5.Invejosus Sorbones: o ex-presidente Efeagá afirmando que Lula é isso ou aquilo. Vai acabar no museu do inconsciente se não liberar esta perseguição insana.

0

Por que eu Votaria em Obama

As pessoas pensam que quando votamos em alguém é porque concordamos com a figura em todos os aspectos, quase como uma relação de fanatismo ou de pragmatismo absoluto. A realidade é bem diferente, podemos fazer escolhas que envolvem princípios éticos, históricos, pessoais, não significando apoio incondicional ao fulano ou beltrano. Eu votaria em Obama pelo que ele representa historicamente e socialmente e não é preciso fazer reflexões complexas para perceber as diferenças entre os dois candidatos. Não é só nas propostas políticas que os partidos democrata e republicano são diferentes. Segundo a jornalista Paula Menna Barreto, o comitê central do senador republicano John McCain, por exemplo, fica em um prédio elegante. O comitê do democrata Barack Obama fica numa casinha simples no centro de Phoenix, Arizona, numa parte considerada pobre da cidade. Entrando no comitê republicano você percebe que as pessoas também são diferentes das que freqüentam o escritório central democrata. No primeiro, praticamente 100% são brancos, no segundo, tem gente de todo tipo. As diferenças são gritantes. Do lado de fora do comitê do Obama tem gente sentada no meio fio, na calçada e até na grama. No comitê do McCain, a organização é impecável. Em tempo de crise e recessão, o partido republicano fez uma compra milionária nas lojas Sacks e Neiman Marcus, a fim de repaginar a provinciana Sarah Palin. Numa atitude de muito mal gosto para o momento econômico, os republicanos gastaram US$ 125 mil (cerca de R$ 269 mil) com roupas e acessórios para a candidata à vice-presidência e toda a sua família, inclusive o bebê. Não sei o que me surpreende mais, o valor gasto com as roupas ou a constatação de que não adiantou muita coisa...

0

As Geladeiras de Antigamente

O apartamento que eu morava antes, tinha um problema que era motivo de quebra-pau homérico em reunião de condomínio: as cozinhas não tinham ralo para escoar a água, conseqüentemente, não podiam ser lavadas. Uma das moradoras, querida dona-de-casa amiga, resolveu jogar água em tudo como um desafio ao status quo do prédio. Resultado: a água escoou para o poço do elevador, queimando os seus componentes e causando um prejuízo de arrepiar os cabelos de qualquer síndico e de todos os moradores pagantes. Faz muito tempo que eu não jogo água na cozinha com direito ao sabão em pó e tudo, e fiquei me lembrando de como era o dia de lavar a cozinha quando eu era criança. Toda semana a cozinha era lavada, e quando a geladeira era descongelada então, a faxina na cozinha se alongava. Era quase um ritual, era preciso desligar a geladeira na véspera, tirar todos os alimentos, limpar as prateleiras cuidadosamente e escoar toda aquela água com pedaços de gelo por horas a fio. Além da faxina, o almoço era qualquer coisa e só era possível tomar água quente o dia inteiro. No final da tarde, lá estava a geladeira organizada, brilhando, o freezer antes abarrotado de tanto gelo, aparecia limpinho e arrumado. Hoje, com as geladeiras "frost free", este trabalho foi suprimido, mas a lentidão do tempo e a dedicação para estas coisas menores também. Constantemente eu vejo pessoas que entregam seus trabalhos se desculpando, se eu tivesse mais tempo teria feito melhor, a pressa não me deixou terminar como eu queria, etc. A vida corrida, a pressa para tudo e o acúmulo de funções virou desculpa para a mediocridade de tudo que fazemos.Tudo agora parece ser justificado pela pressa, ou melhor, pela nossa incapacidade de compatibilizar nossas atividades com as 24 horas de duração do dia. De vez em quando é bom repensar se não ter mais que ficar esperando o gelo derreter é tanta vantagem assim...

0

O Dono do Shopping

Sair de uma cidade grande e violenta como o Rio de Janeiro para morar no litoral nordestino muda (e muito!) a nossa perspectiva sobre as coisas. Não adianta dizer que a gente acostuma,quando muito, a gente desacelera e termina quase baiano... Palavras como prazos, projetos, competitividade, ação, não fazem parte do vocabulário local (que acaba tendo um lado positivo). Aqui todo mundo sabe quem é o dono do maior shopping da cidade e onde ele mora. A filha dele fez quinze anos e toda a cidade comentou os preparativos para a festa. Dizem que as excursões para conhecer os pontos turísticos da cidade incluem uma passagem pela casa do dono do shopping. Mais provinciano, impossível... Pois bem, o dito cujo (que se chama Roberto Santiago para quem quiser saber) está fazendo uma super reforma no seu shopping e como ele conhece todo mundo e não está nem aí para ninguém, a reforma é feita de forma a infernizar o maior tempo possível os clientes. As vagas do estacionamento foram reduzidas, passagens interrompidas, cobertura semi-aberta para a chuva e o sol e o máximo que o cara permite, é uma placa "Estamos trabalhando para aumentar o seu conforto (e o nosso lucro, é claro). Dias desses, na véspera de uma data importante no calendário consumista, o shopping literalmente parou devido ao foda-se no planejamento estratégico das obras. Um cliente, com cara de poucos amigos, parou o carro bem na entrada, desceu injuriado, e entrou no shopping espumando, abandonando o carro do lado de fora de qualquer jeito. Eu estava esperando a chuva passar para ir buscar meu carro e pude ver quando o segurança, ao ver o cara abandonar o carro daquele jeito, foi atrás e abordou o sujeito: - Meu senhor, não pode deixar o carro ali não! Pois o homem respondeu em alto e bom som: -Pois mande o doutor Roberto Santiago ir tomar no cu, entendeu? Tomar no cu! E seguiu em frente enquanto o segurança e todos ao redor ficavam de boca aberta. Eu não aguentei e saí andando às gargalhadas, me perguntando como seria se os cariocas soubessem quem são os donos dos shoppings da cidade.

0

O que não é amor

Quando alguém se comporta de forma inadequada, agressiva e violenta em nome do amor, costumamos a ouvir explicações do tipo "amor doentio", "amor obsessivo" etc e tal. Não acredito nesta combinação amor + violência, isso não existe. A motivação para agredir ou matar alguém, nunca será o amor, podemos chamar de qualquer outra coisa, posse, esquizofrenia, despeito, rejeição, inveja, ciúme, mas nunca de amor, mesmo quando acompanhado de uma justificativa como doentio. O fato é que quando justificamos estes atos em nome do amor, estamos justificando todos os outros: homens que espancam suas companheiras, que perseguem suas ex-mulheres, e toda a sorte de violência contra a mulher que estamos combatendo nos dias de hoje. A associação com a beleza feminina então, só piora as coisas. Fica parecendo que a mulher por ser bonita e sedutora atrai para si todas as desgraças do mundo. Assim já era na idade média, com as mulheres raptadas por sua beleza ou queimadas na fogueira como bruxas, e sempre é bom considerar o mito de Helena de Tróia. Sim, porque se a beleza justifica a tragédia e as agressões, justificaria também a violência sexual. Homens que espancam, seqüestram e assassinam supostamente em nome do amor, são criminosos como qualquer outro e não merecem tolerância nem perdão.

Back to Top